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Oficiais da Justiça do Trabalho relatam adoecimentos por sobrecarga de trabalho e inadequação nas avaliações periciais do TRT-18

há 1 hora
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A pressão pelo cumprimento de mandados, muitas vezes em circunscrições de grande extensão territorial, associada ao histórico e crônico déficit de servidores têm deixado marcas profundas na saúde física e emocional dos Oficiais da Justiça do Trabalho em Goiás. A ASSOJAF-GO ouviu alguns desses servidores sobre as dificuldades que eles têm enfrentado, tanto em relação à sobrecarga extenuante de trabalho, quanto ao tratamento recebido por eles na avaliações realizadas pela perícia interna do TRT-18.


Em um dos relatos colhidos pela ASSOJAF-GO, um Oficial de Justiça (a associação optou por não identificar os entrevistados para evitar a exposição dos seus casos) descreve com precisão a fronteira entre o dever funcional e o esgotamento humano.


Ao assumir a atuação em uma comarca do interior do estado em virtude do afastamento por licença médica de um colega, o servidor deparou-se com uma área territorial imensa, composta por vários municípios e povoados distantes. O que parecia ser uma situação passageira estendeu-se por meses.


“Com o passar do tempo, o acúmulo de mandados, as grandes distâncias percorridas, a responsabilidade pelo cumprimento integral das diligências e a sensação permanente de que, por mais que eu trabalhasse, ainda havia muito a ser feito, começaram a produzir um desgaste cada vez maior”, relata o servidor.

O ápice da sobrecarga ocorreu durante um deslocamento entre municípios para cumprimento de diligências já acumuladas. Sozinho ao volante, sob o peso dos prazos e de viagens intermináveis, o corpo e a mente atingiram o limite absoluto.


“Em determinado dia, após já ter realizado diversas diligências, seguia em direção à próxima localidade. Durante o trajeto, comecei a pensar nos mandados que ainda precisaria cumprir e na possibilidade de ter que percorrer novamente grandes distâncias. Naquele momento, fui tomado por uma angústia muito intensa. Comecei a sentir uma vontade incontrolável de chorar e, de fato, chorei compulsivamente. A sensação era de total esgotamento. Queria simplesmente voltar para casa e não fazer mais nada. Diante de tudo aquilo e da consciência de que aquela situação não teria fim, naquele momento minha vontade era desistir de tudo.”

Percebendo que a integridade psíquica havia ruído, o oficial interrompeu a viagem, deu meia-volta na rodovia e buscou atendimento médico imediato com um psiquiatra, sendo diagnosticado, medicado e afastado temporariamente de suas funções.


Embora o Tribunal tenha providenciado suporte temporário , com a designação mensal de outros oficiais para prestar auxílio à vara em que atua, o servidor alerta que arranjos paliativos não resolvem o problema crônico de falta de pessoal no TRT-18.


“O episódio demonstrou, de maneira muito concreta, que a concentração de toda a demanda de uma circunscrição em um único Oficial de Justiça não é sustentável por período prolongado. Cheguei muito próximo de um adoecimento mais grave e precisei buscar atendimento médico justamente porque percebi que já não conseguia suportar sozinho aquela carga. Não se trata apenas de uma preocupação com o volume de serviço: já vivenciei concretamente os efeitos que a sobrecarga prolongada produz sobre a saúde.”

 

Adoecimento físico, luto e colapso emocional profundo


A sobrecarga de trabalho enfrentada pelos OJs no TRT-18 tem produzido exaustão e empurrado servidores para quadros crônicos de adoecimento físico e colapso emocional profundo. Em outro relato colhido pela ASSOJAF-GO sob sigilo, uma Oficiala de Justiça descreve como sua dedicação à carreira resultou em um pesadelo de dor crônica e grave sofrimento psíquico.


Lotada no interior, a servidora viu sua rotina ser consumida pelas diligências e pela certificação ininterrupta de mandados à noite e nos fins de semana. "Minha cabeça não desligava mais”, relata. A sobrecarga motora gerou lesões na coluna, braços e pernas, evoluindo para o diagnóstico de fibromialgia, Burnout e depressão severa.


O ponto mais crítico deu-se no contato com o setor médico do Tribunal. Mesmo com laudos externos categóricos e em quadro agudo de dor, teve atestados indeferidos pela Junta Médica, que teria desconsiderado a gravidade da condição sob a alegação de que a patologia "não configurava incapacidade". A recusa veio acompanhada de pressão para retorno imediato ao trabalho, sob risco de sofrer um processo administrativo


O estresse agudo, somado ao luto pela perda de um familiar, fez seu quadro psíquico ruir, resultando em ideações suicidas e necessidade de intervenção medicamentosa emergencial em ambiente hospitalar. “Quando cheguei ao psiquiatra, ele disse que não poderia me deixar sair de lá, sob o risco de me perder”, conta.


"Quando adoece, o servidor se sente um objeto quebrado e descartável. Dei meu sangue pela Justiça do Trabalho e quando mais precisei de cuidado, recebi frieza e ameaça de processo", desabafa. Hoje, aguarda decisão do Tribunal sobre pedido de teletrabalho. Vive diante do medo constante do futuro e do trauma deixado pelas avaliações periciais. “Nunca pensei que eu pudesse experimentar tamanho sofrimento sendo uma servidora da Justiça do Trabalho.”

 

Capacitismo, sobrecarga e assédio pericial: o calvário de quem convive com uma doença invisível


Com quase duas décadas dedicadas ao Judiciário, outra Oficiala de Justiça do TRT-18, também ouvida sob a garantia de sigilo, relata uma rotina de violência psicológica, barreiras atitudinais e capacitismo institucional ao tentar equilibrar o dever funcional com o diagnóstico de doenças crônicas, degenerativas e autoimunes que comprometem articulações, tendões, sistema digestivo e o quadro hematológico.


Mesmo integrando o grupo de risco na pandemia por estar imunossuprimida, a servidora seguiu cumprindo diligências externas e chegou a contrair Covid-19 em serviço ao adentrar ambientes hospitalares. A situação se agravou com a extensão da circunscrição. Responsável por atender vários municípios e realizar deslocamentos rodoviários exaustivos, ela viu suas dores crônicas, rigidez e fadiga extrema aumentarem a ponto de ela precisar demandar readaptação funcional para atuação urbana e ajuste de jornada. 


A readaptação demorou meses para ser formalizada e não trouxe alívio. Pelo contrário: impedida de cumprir mandados na zona rural, a oficiala passou a receber mais de 200 mandados mensais na área urbana, enquanto colegas cumpriam 1/4 disso. Suas tentativas de garantir que a jornada reduzida fosse respeitada resultaram em retaliações e assédio moral, segundo relata. O quadro atingiu um nível alarmante quando dois colegas de sua unidade também foram afastados por Burnout e crises psíquicas, deixando metade do oficialato da comarca incapacitada pela sobrecarga.


O ápice do desrespeito à dignidade, segundo conta, ocorreu na Junta Médica do Tribunal. Em 2026, com o corpo em processo inflamatório generalizado, plaquetas em queda livre e utilizando analgésicos opioides mais fortes que morfina para conter crises de dor extrema, a servidora pleiteou a homologação de um atestado de 90 dias solicitado por uma médica que a acompanha. Teve a licença sumariamente cortada pela metade. “O prontuário pericial desqualificou meus exames de imagem e laudos apresentados”, diz.


“A dor crônica já é um flagelo, mas ser culpabilizada e punida pela própria instituição por ter uma doença autoimune é uma violência que destrói por dentro. A gente não trabalha sob o conforto do ar-condicionado; está nas ruas, lidando com o conflito e o sofrimento alheio, enquanto o próprio Tribunal, que deveria tutelar os direitos humanos, nos adoece, questiona nossos médicos e corta nosso tempo de recuperação”, desabafou a servidora. 

 

OJ desenvolve Transtorno de Ansiedade Generalizada e Burnout


Outro Oficial de Justiça detalhou à ASSOJAF-GO o impacto de anos de dedicação em unidades com carência estrutural de pessoal, onde a vasta extensão territorial e o volume excessivo de mandados cobraram um preço irreversível à sua saúde física e mental. Ele desenvolveu Transtorno de Ansiedade Generalizada, que evoluiu em seguida para um quadro de Burnout. Hoje ele necessita de tratamento psiquiátrico contínuo e psicoterapia, que demandam uso constante de medicamentos de alto custo. Também passou a conviver com patologias crônicas e desdobramentos metabólicos no organismo.


Lotado em uma unidade do interior, o OJ conta que era o único responsável por uma circunscrição de centenas de quilômetros. A rotina de diligências exigia jornadas que impediam até mesmo a volta para casa ao final do dia. A pressão para não deixar acumular as centenas de ordens que sobrecarregavam sua caixa de trabalho culminou em um acidente grave na estrada, em serviço. E mesmo diante do sinistro ocorrido no estrito exercício da função, o Tribunal, conforme conta, negou o ressarcimento dos prejuízos.


Em consonância com a experiência de outros colegas que enfrentam o adoecimento na função, o OJ relata que os afastamentos clínicos são costumeiramente encurtados ou negados pela junta médica, o que ocorreu com ele quando foi diagnosticado com Burnout. Não raro, diz, o serviço médico impõe retorno prematuro às atividades externas sob questionamentos hostis, mesmo quando o trabalhador se encontra em crise aguda de dor ou instabilidade psíquica. 


Mais tarde, a designação de um colega para substituí-lo na unidade, após ocorrer sua remoção para outra unidade, revelou que o problema não era pontual, mas sistêmico. Submetido à mesma rotina extenuante, o OJ também desenvolveu doença crônica e dores incapacitantes, tendo sua qualidade de vida drasticamente comprometida.

 

Relato de descaso no momento de maior vulnerabilidade

 

Uma Oficiala de Justiça narra uma experiência de desumanização e frieza institucional vivenciadas após ser vítima de um grave acidente de trânsito. Mesmo internada para a realização de cirurgias de urgência e impedida de locomoção, a servidora foi intimada a comparecer presencialmente perante a junta pericial do TRT-18 para homologar seu primeiro afastamento prescrito. Familiares precisaram interceder por ela para que o direito ao repouso inicial fosse acatado.

 

Depois, com severas limitações, membros imobilizados e expressa contraindicação para dirigir, a servidora teve seus atestados reiteradamente desconsiderados e encurtados pela equipe médica oficial, diz. A OJ relata que, ao invés de uma avaliação técnica e acolhimento, deparou-se com posturas hostis, julgamentos morais descabidos sobre o sinistro e a insinuação de culpabilidade por ter sido vítima do acidente.

 

“Fui tratada de forma totalmente desumanizada pela própria instituição em um momento de extrema fragilidade.”O caso reforça o padrão relatado pelos outros Oficiais de Justiça ouvidos pela ASSOJAF-GO.

 

Nota Pública

Na semana passada, a ASSOJAF-GO publicou uma Nota Pública em que condena o fato de o TRT-18 ter publicado portarias com nomeação de novos servidores sem que houvesse qualquer vaga destinada ao cargo de Oficial de Justiça.



No início de setembro, a ASSOJAF-GO protocolou requerimento administrativo junto à Presidência do TRT-18 (Proad nº 18685/2026), em que a entidade solicitava à Administração do Tribunal a destinação de 4, dos 12 cargos de Analista Judiciário recém-autorizados pelo CSJT, à especialidade de Oficial de Justiça. O pedido da associação foi indeferido pelo órgão.


Na mesma oportunidade, a entidade requereu também a nomeação de candidatos aprovados no cadastro de reserva do concurso público vigente para o provimento imediato de vagas. Entretanto, o pedido da entidade não fora atendido.


“Os relatos que chegam à ASSOJAF-GO revelam um cenário de extrema gravidade e que atinge diretamente a vida e a saúde dos nossos colegas. Não podemos aceitar com naturalidade que servidores adoeçam e tenham que recorrer a tratamentos psiquiátricos para suportar a carga de trabalho. É urgente que a Administração do TRT-18 reconheça essa realidade e faça as nomeações necessárias antes que danos irreparáveis aconteçam”, cobra a presidente da ASSOAJAF-GO, Vanessa Vasconcelos.

Há um número expressivo de Oficiais da Justiça do Trabalho em abono de permanência. A estimativa é de possibilidade de 11 (onze) aposentadorias até 2028. “Essas vacâncias previstas podem ampliar ainda mais, em curto prazo, a insuficiência de pessoal já identificada pela própria Administração. Além disso, a necessidade de recomposição também deve ser considerada diante da evolução das atribuições da especialidade”, complementa a presidente da ASSOJAF-GO.

 

TRT-18

A Assessoria de Comunicação da ASSOJAF-GO solicitou ao TRT-18 respostas sobre queixas apresentadas por Oficiais de Justiça em relação ao atendimento do Serviço Médico do Tribunal e também sobre o déficit elevado de OJs na Justiça do Trabalho em Goiás.


Em mensagem, a Coordenadoria de Comunicação Social do TRT-18 informou que não seria possível, neste momento, responder aos questionamentos, tendo em vista que o presidente do Tribunal encontra-se em viagem institucional. Na nota, informa ainda que “por meio de despacho no processo administrativo (Proad) nº 18.685/2026, o desembargador Eugênio Cesário já respondeu à Assojaf-GO sobre o pedido para destinar mais quatro cargos para Oficial de Justiça Avaliador Federal. No documento, o presidente explica as razões do indeferimento do pedido.”



Assessoria de Comunicação da ASSOJAF-GO | Ampli Comunicação

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